O niilista do CRUSP

Mente quem pensa que se escreve pros outros; a gente escreve é pra gente mesmo.

 

Quando Leonardo contou para os pais que havia passado no vestibular para o curso de Filosofia na USP, os dois ficaram tristes, quase como se o filho tivesse decidido se suicidar. A tristeza dos pais não se baseava na comum insatisfação das pessoas em escolher um curso universitário que não possua função na sociedade de mercado, ou na possibilidade do filho terminar em um emprego de baixo salário como professor em alguma escola pública, com alunos o ameaçando. Não, não, a tristeza dos pais de Leonardo eram de origem muito mais profunda e até transcendente. Os dois, depois de tantos anos gastos na criação de um filho, estavam tristes em vê-lo ir para o caminho da perdição; sua insatisfação era porque filho tinha escolhido o curso que apenas “ateu, ou gente doida faz”; essa coisa de pensar muito, e de pensar tanto que enlouquece. Os dois não queriam que o filho tivesse escolhido esse possível destino para si: o destino da filosofia.

O pai de Leonardo trabalhava com algo prático mas nem tão útil: era funcionário público. Enquanto a mãe, pela cômoda e estável situação em que se encontrava, ficava em casa, cuidando dos afazeres, e rondando a vida dos vizinhos. O pai, além do cargo profissional, também possuía cargo eclesiástico: era diácono. Enquanto a mãe, por sua posição de mulher e pelo respeito à tradição da igreja, participava esporadicamente de reuniões em casa, obviamente, com outras mulheres. Ter por genitores figuras tão práticas, não causou a Leonardo nenhum estrago; ele, mesmo tendo crescido na igreja, tendo ouvido todas as histórias bíblicas, não se contaminou, e aos quinze anos, ao ouvir que o homem havia vindo de um ancestral comum do macaco – e veja bem! Não do macaco – fez com que ele desacreditasse de tudo. Para ele não havia Adão nem Eva, só os genes se misturando, e desacreditando do começo do livro sagrado, desistiu do resto, foi ser ateu. “Se o começo é ruim, imagina o resto”, disse ele à mãe, quando decidiu que não iria nunca mais à Igreja. A mãe chorava, e o pai fechou a cara sem querer discutir . Fora o professor ateu que encucara na cabeça do filho ideia tão insana de não haver Deus, e ele não sabendo de muito mais da vida além de bater carimbo e assinar papel, não ia discutir com o filho, era invenção do homem esse negócio de evolução.

Apesar dos pais já terem ouvido da boca do filho que não acreditava mais em Deus e nem na Bíblia, havia uma certa esperança de que no fundo um dia o filho retornasse aos ensinamentos dos pais. Era por causa desse fundo de esperança que os pais ficaram tão atordoados ao saber da decisão do filho de cursar Filosofia, foi porque sabiam que de lá não tinha mais volta. Se alguém começasse a ler e pensar daquela maneira – a maneira dos filósofos – não tinha mais como voltar a acreditar em Deus, a ter família, e iria acabar num hospício, ou até pior, dando aula numa universidade pública. “Onde que você vai morar menino? Você acha que eu vou gastar meu dinheiro suado pra você ficar ouvindo baboseira de professor comunista?”, e os pais colocavam problema, empecilhos. Era falta de dinheiro para sustentá-lo, era falta de emprego quando ele se formasse, e somavam entraves para que ele fosse para a universidade. Nas primeiras semanas, o comportamento dos pais foi como se ele tivesse quase morrido e só faltasse ser enterrado. Passavam para lá e para cá dentro de casa, ignorando totalmente a presença do filho. Não o chamavam para comer, mas deixavam o prato dele na mesa, porque sabiam que ele iria à mesa; não davam bom dia, nem boa tarde, mas continuavam colocando a roupa limpa dele no guarda-roupa. Até que alguns dias se passaram e eles começaram a digerir o fato: teriam um filho na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, e não havia esperneio suficiente que pudesse impedi-lo, o filho ia mesmo e eles só podiam aceitar.

Só duas semanas antes de começarem as aulas que a mãe, ao invés de tentar fazê-lo tomar outro rumo, decidiu deixar que ele fosse para onde queria, e perguntou: “Filho, mas afinal, a gente não pode pagar mesmo pra você morar em São Paulo, como é que você vai fazer pra morar? A ajuda que a gente pode dar é pouca, e não dá pra você pagar um aluguel”, e o filho explicou para a mãe que ela não precisaria se preocupar com isso. Ele só precisaria de pouca ajuda para comprar ítens domésticos porque moraria no Conjunto Residencial da USP, ou CRUSP, prédios dentro da universidade pros estudantes que não podem pagar por moradia; ele ficaria lá. A mãe ficou mais tranquila, e apesar de ainda discordar do tal curso, acabou cedendo: “Se você acha que vai ser bom pra você isso, eu só posso é te ajudar com o que está ao meu alcance. Eu quero te ver feliz, é só isso que uma mãe quer pro filho”, e no dia da despedida, ela, triste e chorosa, disse, “Vai com Deus meu filho, volta pra casa nas férias que eu já estou com saudade”. Assim Leonardo foi embora para São Paulo, cursar Filosofia.

Ao chegar na universidade, um novo mundo se abriu para ele. Havia não só muitas pessoas e muitas atividades, mas muitos livros, muitas matérias, muitos cursos de idiomas que ele nunca havia sequer ouvido falar – como armênio – e professores que haviam dedicado anos de suas vidas estudando tópicos que a maioria nunca havia sequer ouvido falar – como um professor especializado em fenomenologia Heideggeriana. Leonardo teve seus olhos abertos para possibilidades que nunca havia sequer imaginado antes; não era como se ele agora soubesse muitas coisas, mas ele sabia que não sabia. Sabia pelo menos da existência de mil e uma correntes de pensamento, e de mil e uma interpretações, distorções e dissensões sobre a natureza do ser. E assim uma torrente de ideias, discussões e informações contraditórias inundaram seu campo de visão. Era uma enxurrada de conceitos que nunca havia visto antes. Não conseguia entender muito, mas conseguia saber que havia algo ao qual não entendia, e isso já lhe pareceu um começo: só sei que nada sei, já dizia Sócrates no início da filosofia.

Foi aos poucos, em aulas, conversas e leituras que algumas questões fundamentais da filosofia começaram a adentrar sua vida. Desde o Ensino Médio ele já não dava muito crédito para as respostas religiosas sobre como a vida deve ser vivida, e estava agora em busca de suas próprias respostas. Foi na aula de Estética que ele percebeu o quão estranha era o fenômeno da apreciação do belo; afinal, por que consideramos algo belo? E a partir dos textos e discussões de aula, não chegou a conclusão nenhuma, mas percebeu que a ideia de que algo era mais bonito e mais apreciável era pura convenção cultural, e por isso a abandonou, passando então a considerar todas as coisas igualmente belas – ou indiferentemente, todas igualmente feias. Mesmo tendo perdido o senso de ver a harmonia e a beleza nas coisas, resolveu que pelo menos poderia estudar um pouco de Ética e descobrir o que deveria fazer; qual seria afinal a maneira correta de se viver a vida. Entretanto, no final, a conclusão foi a mesma. Depois de muitas discussões e debates, a ideia de certo e errada parecia totalmente arbitrária, e só lhe restava mesmo era a vida útil e confortável, essa luta entre o bem e o mal não passava de mera narrativa criada por povos antigos para justificar suas regras; a realidade e a natureza eram cruas e sem julgamentos, eram apenas como eram. Sem ter o que apreciar no mundo, e sem ter um parâmetro moral, restava-lhe então entender o que era o ser humano e se talvez haveria algum objetivo em sua vida, e o que sobrou foi o ser e o nada. O Existencialismo de Sartre só lhe deu a perspectiva de que poderia significar sua vida de todas as maneiras e de tantas maneiras possíveis quanto se poderia viver, e por isso acabou escolhendo nenhuma. Foi no final da aula de Existencialismo que Leonardo percebeu a total futilidade de sua existência, e que era apenas um ser miserável num pedaço de terra girando em torno de uma bola de fogo num universo vazio eterno e miserável.

A sua conclusão acerca da existência e sua nulidade, o fez tomar uma decisão: não se esforçaria mais com toda essa bobeira de filosofia. Se o universo era cruel e vazio como diziam, do que valeria encher seu tempo e despender esforços para obter tanto conhecimento que no final das contas não passava de palavras vazias? (palavras essas, que como havia aprendido nas aulas de filosofia da linguagem, poderiam simplesmente não se referir a nada da realidade, não passando de meros grunhidos de símios mais evoluídos). Ele tomou então a decisão de viver o que chamaria de vida mínima: comeria, dormiria e viveria, até que o universo desse fim a sua triste existência. Não gastaria mais seu tempo com as aulas, nem com os textos. Passaria todo seu tempo no ócio. Continuaria vivendo na moradia estudantil da universidade, comeria no bandejão, e ficaria vivendo por ali, até que as circunstâncias cegas o levassem até outra situação igualmente desagradável, pois não lhe sobrava nada para se aproveitar da vida.

Inicialmente ele dormia até o meio-dia, acordava, almoçava, voltava para casa para dormir, acordava, tomava banho e jantava. Como não tinha sono de madrugada, porque passava o tempo todo dormindo, acabava vendo vídeos na internet, e acabava adormecendo cansado lá no meio da madrugada. Essaa foi sua rotina por algum tempo. Alguns meses se passaram, e essa rotina mínima já não lhe parecia tão necessária. Havia coisas que poderiam ser excluídas pois estavam demandando um esforço muito grande que ele não queria fazer, afinal, todo seu esforço era vão, já o cosmos era tão sem significado, todas as suas ações eram inúteis, qualquer que fossem. Ele percebeu que não era necessário que ele saísse de casa para ir até o bandejão, tudo isso demandava muito esforço, e por isso resolveu não sair mais de casa. Pediu para que sua colega de quarto comprasse comida pra ele, e a partir daí ficaria dentro de casa o tempo todo. Como não cozinhava, por ser tudo um desperdício de tempo, comprava comida pronta e enlatada, para que tivesse o mínimo trabalho possível. Foi assim por um tempo, até que essa rotina também lhe parecesse muito cansativa e resolveu que não iria excluir outros esforços inúteis, como banho e os cortes de cabelo. Algums semanas depois descobriu mais algumas tarefas vazias no seu dia a dia e decidiu que agora todo seu esforço seria reduziria a duas atividas: comer e dormir. Ele ficaria deitado e só levantaria para comer, e em seguida voltaria a dormir. Era o que lhe restava, ter o mínimo de trabalho possível. Quando sua colega de quarto esquecia de comprar comida, ele reclamava, raspava a porta dela e fazia barulhos de insatisfação, e assim foi sendo sua vida. Deixando o cabelo crescer, deitado, rolando pra lá e pra cá, só comendo e dormindo, sendo alimentado por sua colega de quarto, era o que lhe restava de vida, já que tudo havia perdido sentido.

Um dia depois de algum tempo em que todas as suas atividades eram comer e dormir, resolveu sair um pouco do quarto e dar uma volta pelo prédio. Não iria muito longe, iria só andar pelo corredor, talvez ir até a portaria, e depois voltar. Ele foi andando, lentamente, cansado desde o primeiro passo. Foi caminhando cheio de pelos em si; foi caminhando com o cansaço de quem havia feito muito, chegou no final do corredor, desceu as escadas, parando no meio de cansaço. Duas moças passaram, disseram: “Não sabia que tinha um gato nesse bloco, primeira vez que eu vejo ele”, e a outra respondeu “Acho que é o gato da minha vizinha, sempre escuto ele miando pela comida, mas nunca tinha visto ele sair de casa”, e Leonardo, fatigado de tudo, sequer percebeu que as moças falavam dele. Sem saber o que era certo e errado, sem ter a capacidade de apreciar a arte, sem ter qualquer propósito, apenas existindo, comendo e dormindo, lá estava ele, sem humanidade, sem consciência, apenas um gato. Sua humanidade já tinha se esvaído e agora só lhe faltava mesmo era se esquecer de si mesmo, não havia no que pensar. Como tinha caminhado muito do apartamento até a escada, em direção à portaria, estava cansado, e resolveu deitar e dormir ali mesmo. As pessoas que passavam lhe faziam carinho, e ele não dava a menor importância. Deitado sem significado, esperava a vida passar.

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Humildade como conhecimento

É uma tendência observar as diferentes faculdades humanas – sentir, racionalizar, lembrar – como forças independentes que não possuem a mesma origem. Entretanto, toda vez que se busca determinar rigorosamente onde termina uma e começa a outra, sente-se que algo está faltando, e que a mente é muito mais que a soma dessas faculdades. Se elas podem ser separadas por abstração, quando se pensa na totalidade da mente humana, elas não podem existir independentemente. Por exemplo. ao se recordar de algo, você sente algo, e você pensa algo, e esse pensamento te leva a sentir outra coisa, e essa, por sua vez, te faz recordar alguma outra coisa totalmente desconexa com a primeira lembrança. Este é o fluxo de consciência, e é muitas vezes difícil compreender a relação entre os elementos deste fluxo; a consciência se dá nesse rio ao qual denominamos mente. Isso aponta justamente para uma conexão maior entre essas diferentes faculdades que são muitas vezes encaradas de maneira isolada, e um exemplo dessa conexão pode ser a humildade.

Primeiramente, é importante compreender a humildade real. Como C.S. Lewis fala, humildade não são “homens inteligentes dizendo que são burros, nem mulheres bonitas se dizendo feias”. Muitas pessoas acham que humildade é aquele sentimento, ou pelo menos a expressão de um sentimento, no qual a pessoa se vê de maneira depreciativa, muitas vezes negando a realidade apenas para “parecer humilde”. De acordo com C.S. Lewis, a humildade é o homem não se deixar encher por algo que ele é ou faz; humildade é alguém ficar feliz com o que ele mesmo fez, como ele ficaria feliz no caso de qualquer outra pessoa fazer. Ou melhor ainda, seria uma pessoa que não pensa no “eu”, ela simplesmente vive sua vida voltada para Deus e para o outro, sem se sequer pensar nas vaidades do “eu”.

A definição dada pelo Lewis dá uma pista muito boa, mas trago uma definição quase oposta, pelo menos oposta na aparência. A humildade é uma consequência do conhecimento da realidade; não um conhecimento de informações, nem um conhecimento prático. Um conhecimento profundo e espiritual da realidade da experiência humana em diversos aspectos. Quem é humilde sabe de coisas que o arrogante não sabe, e sabe delas mesmo que nunca as tenha anunciado verbalmente em frases ou pensamentos; ele sabe dessas coisas num nível mais profundo e espiritual.

Algumas pensam “devo ser humilde porque Deus mandou”, e de fato, Deus ter ordenado isso pode ser o seu ponto de partida para a busca da humildade, mas dificilmente alguém a colocará em prática se procurar apenas fazer porque “Deus mandou”. Você deve sempre se perguntar o porquê dessa ordem e quais são as consequências disso, ou seja, o que ocorre quando você é humilde, o que muda em você e à sua volta.

Quando você se pergunta porque ser humilde perante Deus e perante o próximo é algo bom, a principal resposta que você encontra pra ser humilde está na própria realidade: você não possui sequer consciência de tudo que passa na sua mente; você não possui controle sobre seus próprios órgãos que trabalham sem que sua vontade seja consultada; você está inserido em um sistema social no qual você não pode alterar quase nada e esse sistema social inserido num planeta, um planeta dentre outros tantos milhões e milhares; você não tem poder sobre quase nada, é como uma vento ou uma fumaça. É a partir desse conhecimento profundo que a humildade surge: o conhecimento da realidade da pequenez humana. Toda humildade que não venha dessa consciência não será efetiva, pois será mera vontade e não uma transformação profunda do ser ao perceber sua verdadeira situação perante o universo.

Muitos caem em niilismo ou desespero após essa percepção, mas no caso de um cristão que ao tentar obedecer a Deus, sendo humilde, percebe uma realidade mais profunda, essa percepção lhe causa uma transformação completa, pois de agora em diante ele não estará apenas indo contra um mandamento caso não seja humilde, estará indo contra algo que ele sabe, que ser humilde é a única forma que alguém pode ser quando conhece a situação na qual está, uma situação de total dependência diante do criador.

A esse conhecimento profundo, que não se dá apenas por meio de uma nova informação, mas de uma transformação profunda, pode-se chamar de sabedoria, e essa sabedoria não residiria apenas em formulações teóricas, mas na profundidade do ser humano, essa profundidade seria, então, a dimensão espiritual.

É importante notar que o sentido de espiritual não se refere a forças sobrenaturais, mas sim a uma realidade interna vivida por todos os seres humanos em diferentes graus. Alguns podem buscar desenvolver essa dimensão que apenas o ser humano enquanto outros podem até negá-la, resumindo suas preocupações ao campo das ações externas e dos fins designados racionalmente.

No caso da humildade, não a humildade seguida apenas como uma ordem, mas como a humildade vivida numa dimensão espiritual profunda, esta causa uma transformação não apenas nas ações, mas na maneira que o mundo é visto, muda os valores e consequentemente os sentimentos, e se pode haver tamanha transformação em todos os aspectos da vida causados por uma mudança espiritual, a única explicação seria que todas as faculdade humanas possuem como origem esta realidade espiritual humana, e é dela que emerge todas as outras faculdades, seja raciocinar, sentir ou compreender, e é só a partir dela que se pode buscar a unidade do ser humano como um todo.

Em busca de um conceito de pecado

Para que alguém queira de fato ser salvo por Cristo, é preciso que antes de querer ser salvo, essa pessoa reconheça algo do qual deve ser salvo, e isso é o pecado. Para que haja a necessidade de um Salvador, é necessário que haja pecado, erro e transgressão, e é por este motivo que o pecado é um conceito fundamental na vida de um cristão.

Fiquei durante muito tempo intrigado por essa ideia. Queria entender melhor, afinal, o que seria o pecado e como poderia de identificá-lo. Quando questionados a maioria diz que “pecado é o que transgride a Lei de Deus expressa na Bíblia”, e sempre vi essa definição com desconfiança, pois ainda assim, é um tanto quanto óbvio à qualquer um que muitas coisas que não estão na Bíblia como pecado, são pecados. Diferentes contextos sociais ou culturais trazem novos desafios e questões, e de alguma maneira intuitiva percebemos baseados no que já nos foi dado, como devemos responder aos dilemas que temos na nossa frente naquele momento. Essa intuição só poderia existir se por detrás das ordens claras, houver princípios que nós apreendemos mesmo que não os enunciemos, e são esses princípios que eu busco.

Não se trata de uma relativização do que é certo e o que é errado, mas da busca de definições e ideias mais abrangentes. Se os Mandamentos possuem princípios além das simples regras, ao ter alguma ideia desses princípios perceberemos qual seria a vontade de Deus para mais áreas da nossa vida, ou pelo menos teríamos alguma ideia de como lidar com as coisas. Muitos pecados, a arrogância por exemplo, podem ser o conteúdo de uma forma aparentemente santa. É possível utilizar até mesmo algo que se faz para Deus apenas por vaidade, e esse tipo de comportamento foi extremamente criticado por Jesus, pois ao realizarem atividades religiosas, o coração humano estava repleto apenas de vaidade e soberba, o que demonstra o quão subjetivos podem ser os pecados.

Se é possível que se obedeça a norma e se faça tudo errado, como no caso dos fariseus, a pergunta é, então o que é de fato ordenado, e a resposta não está em simples regras do que fazer ou do que não fazer, mas em princípios. Princípios são muitas vezes genéricos e abstratos, mas mantê-los em nossas mentes nos possibilita encontrar resposta para mais situações do que o simples “fazer ou não fazer”.

No caso do pecado, a pergunta seria: Afinal, qual é o princípio que é quebrado em todos os pecados? Enumerar os diferentes pecados, em diferentes áreas não é suficiente, pois é possível que haja mais áreas que ainda não temos conhecimento ou que surgirão no futuro. E é aí que é necessário encontrar o princípio que é quebrado em todos os pecados.

Pode-se encontrar uma resposta provisória para isso no próprio Jardim do Éden. Quando Adão e Eva recebem a proposta da serpente, ela lhes propõe ser como Deus, e eles abraçam essa proposta. Muitas pessoas focam na questão do Pecado Original, mas considero importante ver no Éden a origem de todo o pecado no sentido desse sentimento e decisão inicial. Naquele momento eles quiseram ser outra coisa, eles abandonaram sua natureza de criatura, e quiseram ser igual ao criador. A partir disso, é possível ver todos os outros pecados como diferentes manifestações desse impulso: a distorção da natureza das coisas.

Essa ideia de pecado, como distorção da natureza, pode explicar cada um dos famigerados sete pecados capitais. Todos eles são, de certo modo, mudança ou a extrapolação das coisas que já não atuam mais da maneira como foram criadas para atuar, ou que não querem ser o que são. O que seria a gula, a avareza e a luxúria, senão a comida, o dinheiro e o sexo apreciados como prazeres em si mesmos de maneira desregulada, contrariando o modo que as coisas deveriam ser? Ou o que seria a ira senão a falta de controle de uma pessoa sobre seus próprios impulsos, que tomam posse de toda a sua capacidade a tornando menos humana e mais próxima dos animais? A preguiça, o homem que foi feito para servir a Deus e ao próximo das mais diversas formas e que deseja não fazer nada. E por último a inveja, que ao invés apreciar o que já é seu, decide querer o que não lhe pertence.

Gostaria definir também dois princípios positivos, pois não é apenas de ordens negativas que um cristão vive. Em muitos momentos a dificuldade está em fazer algo, e não em deixar de fazer. Dois princípios que seguem da ideia de natureza das coisas. O primeiro é a de Verdade, que seria a coerência do discurso e das ideias com a natureza das coisas. A ideia de verdade é muito mais abrangente que simplesmente dizer o que aconteceu quando lhe perguntam. Está embutido nela a honestidade, o cumprimento dos votos, a fidelidade, pois tudo isso é a coerência entre os fatos e os discursos; que nossas respostas sejam sempre sim, sim e não, não. O segundo princípio é o de Justiça em seu sentido mais amplo. A Verdade e Justiça não são obviamente excludentes, e sempre caminham juntas, mas gostaria de colocar a Justiça como um princípio entre dois indivíduos diferentes. Justiça em um negócio, é uma relação, em qualquer julgamento necessário, que ele não seja feito de acordo com nossos interesses, mas de acordo com o que a situação requer como medida para que o equilíbrio seja restaurado. A Justiça seria então, um princípio para se pensar principalmente nas relações externas, enquanto a Verdade seria mantida em todas as situações, mas inicialmente internamente, pois toda mentira é contada primeira para a própria pessoa.

Obviamente isso não soluciona todos os pecados colocado na Bíblia, mas inclusive questões mais complicadas, como as relacionadas ao sexo, podem ficar mais claras quando se pensa na raiz de todos os pecados: a transgressão da natureza das coisas criadas por Deus.

Edifício burocrático

Edifício sem portas, sem janelas
Como escapar de teus inumeráveis
Corredores que me servem de celas?
Preencher protocolos intratáveis
Seguindo à risca todas as tuas normas.
Não os recebe em nenhuma das formas;
Não é suficiente, o meu documento
sempre é rejeitado pelo funcionário
Que me diz indiferente:  “É o momento
Errado para trazer. Não é o horário
Que posso lhe atender. Volte outro dia…”
Sigo perambulando pelas filas,
Carregando minha pasta vazia.
As ordens a mim dadas, repeti-las
Todo dia, sem saber qual a razão
de ter minha documentação
Sempre negada. Diga, máquina
Burocrática sem-rosto, quem te
Desafiará? Quem dentre teus lacaios
Colocará à risco de, de repente,
Perder seu posto de trabalho?
A quem reclamarei? Na ouvidoria?
Em qual departamento sou ouvido?
Se todos te obedecem, poderia eu
Destruir o método que é seguido
Por todos mas que ninguém escreveu?
Continuo então de fila em fila, de
Protocolo em protocolo, sigo
De formulário em formulário, de
Senha em senha. Agora, quem sabe,
Consigo seguindo todas as regras
Escapar desse edifício sem janelas,
Cujas normas só me servem de celas.

Versos maldosos

Como podes ser tão esdrúxula?
Como aguento essa cara tua?
Mesmo na minha cama, nua,
Pareces uma rã que pula
Desajeitada. As tuas formas
São aberrações da natureza;
Teus seios, tua púbis, com certeza
Não seguem da estética as normas.
Teus construtores eram cegos
E nos olhos puseram pregos
Para ter certeza de que não veriam essa coisa que se chama tu.

Soneto da Contradição

Como um par de grandes mãos imortais;
as forças opostas que eternamente
lutam. Pode sê-lo o são no doente.
No jardim é o espinho nos rosais.

Também é medo e covardia no mais
corajoso dos mortais. E mente
aquele que finge que não sente
eles tomarem de todo sua paz.

São benditos enquanto malditos.
É o paradoxo de ser sim e ser não.
São os sussurros expressos aos gritos.

Aí, o coração humano, de tão aflito,
desiste de solucionar o conflito;
pula ao infinito da contradição.